Entrevista com José Zulmar Lopes

O Conexão Melhor Idade entrevistou o profissional José Zulmar Lopes. Leia a entrevista abaixo.

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Quantos anos você tem, e qual a sua formação?

Eu tenho 59 anos e minha formação é em Administração de Empresas..

Você pratica algum esporte?

Sim. Pratico atividades outdoors, como trilhas e camping – tenho um trailer e uma barraca e pratico fitness 

E o que pensa sobre aos cuidados na longevidade?

A geração senior testemunhou as principais transformações sociais, econômicas, comportamentais e tecnológicas dos últimos 60 anos, o que é um privilégio. A questão é que nem todos as pessoas vivenciaram da mesma forma, pois inúmeros fatores culturais e socioeconômicos impactaram na assimilação das transformações. Entretanto, é inegável que há mudanças significativas em curso no comportamento dessa população, a partir da perspectiva de que “vamos viver mais, portanto precisamos viver melhor”.

Os desafios são as políticas públicas em saúde, habitação, mobilidade e Previdência Social. É primordial o respeito e a aceitação pela sociedade e a família. Enquanto as políticas públicas engatinham e o descaso social aumenta, a ciência avança a passos largos. A medicina evoluiu, nos deu anos de vida, mas a sociedade ainda não está preparada para a longevidade.

Após tantos anos de experiência profissional e de vida, como você analisa a sua trajetória profissional?

Claro, que dentro do atual cenário político-econômico brasileiro, muitas coisas que fiz talvez não pudessem ser realizadas hoje, isto começou há anos atrás. Fui estagiário da empresa alemã Siemens, em Porto Alegre e trabalhei lá durante 22 anos, em diversas regiões do Brasil e também no exterior. Deixei a empresa para buscar novos caminhos e me tornei – o que era incomum para a época – um “mochileiro corporativo” empreendendo em várias regiões. A decisão de pedir demissão aos 43 anos para alçar voo solo não foi fácil. Na ocasião, a diretoria e todos os conhecidos me desaconselharam. Falei com a família e recebi apoio,  afinal eu iria ter o meu próprio negócio. Confesso que tive muito medo e, de fato, não deu certo. Quebrei feio como empreendedor porque achava que o codinome “o Lopes da Siemens” abriria as portas necessárias e que vindo de uma multinacional, tudo seria fácil. Descobri que um belo passado de glórias não abre portas sem que haja esforço. Não sabia quanto o mercado estava disposto a me remunerar pelos meus serviços.

A lição foi aprender que é preciso aceitar que há uma parte da vida que necessariamente dá errado. A existência tem sempre uma dimensão trágica. Então, objetivamente o que fiz e que me ajudou muito, foi articular meu networking com fornecedores e parceiros de empresas. Em razão disto, em 2014, participei de um processo seletivo concorrendo com dezenas de millenials.  Fui selecionado e voltei ao mercado trabalhando com CLT no segmento de energia eólica. Imagina., eu estava com 55 anos. Trocando em miúdos, tem gente que vive presa ao que já aconteceu, que resiste às novas ideias e às mudanças e, ao mesmo tempo, é neuroticamente preocupada com o envelhecimento, sem se dar conta de que são essas atitudes que, de fato, as tornam velhas.

Mais tarde, convencido de que poderia ajudar outras pessoas no papel de conselheiro e intraempreendedor, voltei a estudar, fiz cursos e hoje dou suporte a novos e pequenos empreendedores na gestão de negócios.  Paralelamente, presto serviços como freelancer  no segmento de energia renováveis.

Na sua opinião existe um mercado de trabalho voltado para a terceira idade no Brasil, e qual seria a solução para equalizar essa diferença?

Sim existe. Novas habilidades em áreas diferentes podem ser um requisito para garantir o trabalho depois dos 40, 50 anos. Não será incomum encontrar um advogado que quer trabalhar com energia renovável um desenvolvedor de aplicativos que quer escrever um romance, ou mesmo um editor que quer ser designer.

Muitas pessoas sonham em mudar drasticamente de carreira, mas poucas fazem isso. Neste novo cenário, é provável que o período de educação no início da vida não seja mais suficiente para sustentar uma carreira por tanto tempo. A evolução tecnológica dos últimos anos evidenciou a falta de habilidades, preparo e conhecimentos de muitos desses profissionais. Essas falências, para alguns, está impulsionando  que cada vez mais pessoas da terceira idade passem a se atualizar, por meio de programas educativos inovadores de curta duração e de espaços de troca de conhecimento principalmente pela Internet.

Sabemos que em outros países, pensando no exemplo do Japão, existem políticas públicas que auxiliam o profissional idoso a se encaixar no mercado de trabalho, e exemplos como os EUA cuja aposentadoria chega em média aos 62 anos, e o profissional vai sendo preparado para a transição. Como você percebe essa questão aqui no Brasil?

Não acredito nas políticas públicas brasileiras que se baseiam em economia para criar empregos.. As poucas iniciativas são fracas e as vagas são, em sua maioria, em funções operativas, como empacotadores, atendentes etc .

É importante salientar, aliás, que as empresas brasileiras ainda falham muito ao buscar engajar seniores na atuação colaborativa, no que se chama de “visão de dono” – o intraempreendedor. O termo original, em inglês, é ‘intrapreneur’, nada mais é do que um empreendedor interno.

Os intraempreendedores são colaboradores sem vínculo empregatício  que buscam, criam e implementam ideias e possuem capacidade diferenciada de analisar cenários e de encontrar oportunidades. Este profissional está sempre disposto a lidar com riscos se move em busca pelo novo, costuma gerar boas ideias e deseja compartilhar soluções com os seus superiores. É o perfil perfeito para a terceira idade!

Quais são as suas expectativas para o futuro do mercado de trabalho na sua área?

Os departamentos financeiros e administrativos das empresas se esforçam cada vez mais para oferecer vantagens estratégicas, principalmente entre os novos empreendedores que esbarram na dificuldade da administração financeira e administrativa de seus negócios.

Hoje existem PMEs que sequer sabem ler um balanço ou tropeçam feio no básico sobre a gestão de fluxo de caixa. Empresas novas irão quebrar, porque “os empreendedores que sabem tudo, são os que mais perdem”. Além disto, o empreendedor investe tanto de seu tempo para ganhar dinheiro e muitas vezes não dedica nem algumas horas para ver relatórios de gestão financeira-administrativa que determinam o rumo da empresa.

Novos aplicativos de finanças farão parte do dia a dia e isso será um desafio para a gestão. Poucas companhias – mesmo de médio ou grande porte – estão fazendo o trabalho necessário para alinhar e integrar dados, o que significa que elas ainda não capturaram o valor total da transformação digital. Com tantos dados disponíveis, talvez sejam “o novo petróleo”.

A monetização da informação é um avanço impossível de ser interrompido. Se os dados são o novo petróleo, eles não podem estar no pré-sal. Não adianta ter uma riqueza gigantesca que não possa ser acessada. E é neste contexto que o novo gestor financeiro-administrativo tem um campo amplo de atuação;

Que mensagem você pode deixar ao público do Conexão Melhor Idade?

Viver é desenhar sem borracha, disse Millor Fernandes. Esqueçam o passado, esqueçam sua reputação, tempo de trabalho e expertise. O mundo mudou e os conceitos também. Às vezes “não adianta arrumar as mesas e cadeiras no convés do Titanic”.  É necessário ter uma nova visão de tudo que nos cerca hoje e ser flexível.

Além disso, é fundamental estar inteirado da tecnologia. Todas essas mudanças devem ser absorvidas por todos seniores que almejam obter sucesso no novo cenário, tanto na vida pessoal, como na profissional.

Portanto: bem-vindo, não mais à era de mudança, mas à mudança de era. Talvez Darwin já soubesse de tudo isso lá atrás, quando disse que as espécies vivas que sobrevivem não são as mais fortes, nem as mais inteligentes; são aquelas que conseguem se adaptar e se ajustar às contínuas demandas e desafios do meio ambiente.

 

José Zulmar Lopes
zulmar792@gmail.com

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